Reviravolta
Nesse percurso de estudos sobre masculinidades e outras pesquisas que adotam a perspectiva feminista, tenho pensado em algo que pode ser revolucionário em termos de produção do conhecimento. Os homens, como já se sabe, sempre foram dominantes, não poupando a esfera de produção científica. Eles teceram sobre as mulheres conhecimentos que não levaram a perspectiva dessas em consideração, construindo um modelo assimilado por nós, mulheres, de forma tão profunda que me vejo reproduzindo ele inúmeras vezes durante um dia (imagina só quando eu paro para mensurar uma vida de 23 anos?).
Agora, tempos presentes e vividos por mim, percebo uma explosão sobre a temática do gênero, principalmente tomando como objeto de análise a luta das mulheres por reconhecimento e emancipação dessa estrutura dominante. Julgo esse processo de rompimento com os antigo ideais um passo para problematizarmos tantas outras desigualdades estruturais da sociedade. É relevante e necessário.
Isso me deixa reflexiva diante a escolha de pesquisa quue fiz, onde tenho como objeto central de análise a perspectiva de homens. O que eles pensam sobre "ser homem"? pode parecer óbvio perceber que as respostas que obtenho já eram esperadas. Contudo, fiquei tentando mensurar o impacto que um estudo sobre essa temática pode realmente ter, já que durante toda a história da produção de conhecimento foi predominante o olhar masculino sobre as relação e fenômenos cotidianos. Qual é o sentido de continuar dando voz a esses sujeitos? eles, os homens, já falaram bastante. Mas, falaram sobre eles mesmos? e quem foram os homens que falaram com respaldo legítimo?
Perguntas nunca feitas antes e o deslocamento imaginativo exercitado por jovens homens para pensarem sobre suas prática cotidianas e o que eles associam ao "ser homem", por fim, pressiona que os mesmos assumam atos com os quais eles não compactuam, porém reproduzem. Ou faz emergir símbolos encrustados nas raízes de suas identidades de gênero, polarizando sujeitos homens e mulheres no mundo ("isso é de homem", "isso é de mulher"). Ou até mesmo apontando práticas e modelos ideais com os quais eles concordam, mas a expressão pública disso pode remeter ao julgamento do seu grupo de pares, seja para compactuar com um tipo de homem conservador ou libertário. Somando todos esses frutos ao fato de que é uma mulher, frente a frente, os questionando sobre opiniões subjetivas do "eu", mas que refletem nela (a pesquisadora) também, deve ser o diferencial dessa pesquisa.
Mulheres pensando sobre homens é a verdadeira reviravolta na produção de conhecimento acerca dos gêneros, pois antes na história, quem detinha esse lugar de fala sobre "a outra" eram os homens. O jogo virando em termos científicos, onde mulheres pensam sobre a masculinidade sem descartar a histórica existência do outro, tende a abrir caminhos que indicam onde devemos começar a atuar para transformar.
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